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Nº 119 - Julho 09

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Entrevista: Lucas Aquino

Um P&D mais arejado

Open innovation, que prega que empresas captem idéias externas e firmem parcerias com terceiros para inovar, ganha centro de prática no Brasil. Um dos responsáveis pela iniciativa fala do potencial dessa filosofia


Open innovation, ou, vertendo-se do inglês, inovação aberta. De forma resumida, esse conceito prega a gestão da inovação sob um prisma colaborativo, em que empresas se estruturam para tornar seus departamentos de pesquisa e desenvolvimento permeáveis a idéias de colaboradores externos, como universidades ou outras empresas. Propondo uma ruptura com os modelos de inovação sigilosos e estanques, na inovação aberta até mesmo concorrentes figadais podem ser valiosos parceiros, dividindo custos e riscos no desencadeamento de projetos de interesse comum. Crescentemente abraçada mundo afora por fabricantes de bens de largo consumo, inclusive na criação de embalagens, a inovação aberta promete agora ganhar força no Brasil.
No fim de maio, em São Paulo, foi inaugurado o Open Innovation Center Brasil, comunidade que visa congregar indivíduos, empresas, universidades e o governo em torno da difusão e da melhoria das práticas desse molde de inovação no País. O patrono da iniciativa é ninguém menos que o professor americano Henry Chesbrough – responsável, com um best-seller de gestão corporativa lançado em 2003 (Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology, sem versão brasileira), pela popularização do termo open innovation. Lucas Aquino, um dos fundadores do Centro e diretor da Allagi, empresa que presta serviços de consultoria em open innovation, conversou com EmbalagemMarca a respeito dos objetivos da entidade e do potencial da inovação aberta no Brasil.

Como o Open Innovation Center funcionará e de que modo buscará difundir o conceito de inovação aberta no mercado nacional?

O Centro nasce como uma comunidade de prática, ou uma rede de colaboração, que procura reunir praticantes de open innovation. Podem ser gestores de inovação das empresas, acadêmicos que discutam o tema ou formuladores de políticas públicas de incentivo à inovação que incorporam o conceito de open innovation. A iniciativa visa contornar características da inovação fechada, como a falta de congregação entre colegas, o baixo compartilhamento de conhecimentos e as interrupções de ciclos virtuosos de idéias, que acabam ocorrendo devido à grande mobilidade dos profissionais de inovação. O Centro buscará canalizar e potencializar o espírito gregário da inovação aberta, que, por conceito, considera limitante a independência e a estanqueidade de indivíduos, empresas, governo e universidades nas buscas por inovações.

 

De que forma a inovação aberta pode ajudar as empresas no atual contexto da busca por inovação no Brasil?

O open innovation é uma ferramenta que busca estruturar as melhores práticas da gestão de inovação, tornando mais eficazes os processos de criação e de aprimoramento de produtos e processos. Inevitavelmente, o que primeiro chama a atenção das empresas são as políticas públicas, com as quais, em curto prazo, já é possível reduzir custos com P&D e inovação. Mas, num segundo momento, é importante as empresas perceberem as vantagens de se estruturar para tornar mais eficazes os seus procedimentos de inovação. O open innovation, ao propor colaboração, co-desenvolvimento e novos modelos de negócios, por exemplo, pode sem dúvida maximizar esses processos. A meta do open innovation, de forma sintética, é permitir às empresas adotar uma gestão empreendedora do processo de inovação, em parcerias com governo, universidades e outras empresas, com investimentos próprios ou com suporte de venture capital.

  

Existem características que tornam uma empresa mais ou menos propensa à inovação aberta?

Há alguns elementos que ajudam a identificar se determinada indústria possui as características necessárias para que o open innovation funcione – e se compensa ou não adotá-lo. Um deles é a dinâmica tecnológica da indústria. Para um fabricante de mísseis nucleares, por exemplo, não faz sentido. Quanto de mobilidade de mão-de-obra existe nessa indústria? Quão disperso é o conhecimento nessa área, para que eu consiga acessar pessoas que detêm conhecimento sobre o assunto? Além da disponibilidade de idéias e do grau de mobilidade da mão-de-obra, o ritmo de nascimento de novas empresas no mercado e a importância da universidade no ramo de atuação são outros fatores importantes. Quanto mais altos, mais esses elementos indicam propensão ao open innovation. Mas, em teoria, a implantação da inovação aberta é mais voltada às médias e grandes empresas, cujo desafio é manter um fluxo constante no pipeline que vai gerar inovações lá na frente. Com uma só idéia, uma pequena empresa consegue dobrar ou triplicar de tamanho ano após ano. Já as grandes precisam transformar a inovação num processo sistemático e de grande escala, para manter um crescimento de 1%, 2% ou 10% ao ano.

 

Alguns fabricantes de bens de largo consumo, como alimentos e cosméticos, têm utilizado a inovação aberta para o desenvolvimento de inovações em embalagens (veja o quadro). No caso do acondicionamento de produtos, quais os possíveis benefícios?

No que diz respeito às embalagens, vejo o open innovation como um possível auxílio em dois pilares: o das matérias-primas e o dos processos de fabricação. Um exemplo para o primeiro caso: pesquisa e desenvolvimento de plásticos alternativos, de fontes renováveis, para a produção de embalagens “verdes”. Gerar matérias-primas “verdes” a baixo custo é um grande desafio. Há vários riscos tecnológicos e mesmo de custo atrelados a isso, e o open innovation pode ser uma maneira de agilizar o desenvolvimento e a amortização desses processos. Isso pode ocorrer via parcerias com universidades ou outras empresas. Quanto a tecnologias de fabricação, estratégias de joint-venture, por exemplo, podem ser úteis para dividir riscos e custos entre empresas que tenham interesse nos mesmos processos.

 

Sobre a questão das parcerias, o senhor acredita que as empresas nacionais estão propensas a aceitar o princípio da inovação aberta que recomenda o compartilhamento de projetos até mesmo com concorrentes?

Existem dois casos distintos. Primeiro, o das empresas concorrentes de mesmo porte trabalhando em projetos de cooperação. Diria que tais parcerias são viáveis, principalmente naquelas que chamamos de fases pré-competitivas, quando do desenvolvimento de tecnologias promissoras, mas que ainda estão em fases incipientes, longe de serem colocadas no mercado. Essa é uma fase interessante para se associar com os concorrentes, porque os custos e riscos são divididos. Por outro lado, é possível haver modelos que aproveitem movimentos de startup. São grandes empresas trabalhando junto com pequenas empresas. Nesses casos, a grande empresa pode se estruturar internamente para aproveitar boas idéias captadas nas empresas pequenas e que ela não consegue aproveitar no seu modelo de negócios atual. Funcionaria como uma espécie de incubadora corporativa. Um outro modelo plausível é a empresa se abrir para atrair empreendedores externos que tenham algum projeto que seja de seu interesse. O sentido do open innovation é justamente o de ser permeável: deixar terceiros se aproximarem para trazer boas idéias e utilizar terceiros para a saída de idéias.

 

O conceito de inovação aberta também dá importância às parcerias entre o mundo empresarial e as universidades. Mas o que se ouve é que existe pouca interação entre empresas e o meio acadêmico no Brasil...

Hoje, ainda falta maturidade, tanto do lado das empresas quanto das universidades, para lidar com parcerias. Do lado das empresas, reclama-se muito que faltam profissionalismo e comprometimento dos pesquisadores nas universidades. Prazos são esticados, entregas não são cumpridas e por aí vai. Acontece que os projetos com empresas não são vistos como prioridades no dia-a-dia dos pesquisadores, que têm outras preocupações acadêmicas, como a formação de estudantes e a produção científica própria. Falta tempo. Do lado das empresas, hoje faltam mecanismos, processos, modelos internos de gestão, de coordenação e de interação com a universidade para poder negociar aspectos como propriedade intelectual e disponibilização de recursos para a consecução dos projetos. Então, de certa forma o cenário nacional não está estruturado. Lá fora existe uma cultura muito mais enraizada desse tipo de parceria. Há mecanismos de transferência de conhecimento da sociedade – já que, teoricamente, o conhecimento da universidade é o conhecimento da sociedade – para o mundo empresarial. Outros países vêem mais as interações com bons olhos, enquanto no Brasil impera certa visão de exploração das universidades pelas empresas, ou seja, de apropriação de um conhecimento público para lucro privado.

  

O que vem sendo feito no Brasil em relação a programas de inovação aberta?

Já existem algumas iniciativas no que diz respeito às incubadoras corporativas. Não na mesma velocidade do que acontece em outros países, empresas locais também já começam a apostar na questão da atração de novos negócios como fonte de inovação, de modo a alavancar sua capacidade de tratamento de idéias e projetos. Cresce, no mundo corporativo nacional, a consciência de que é impossível se pensar em todas as possibilidades sozinho. A abrangência de conhecimentos e de tecnologias que existem torna muito difícil que empresas consigam ter pessoas suficientes para pensar em todas as possibilidades. O ascendente interesse na inovação aberta está também atrelado ao desenvolvimento da indústria de venture capital no Brasil, que precisa de estratégias de saída. Com o mercado financeiro cada vez mais volátil, o investimento em projetos empresariais se torna uma estratégia interessante para essas empresas de capital de investimento.

 

O modelo da inovação aberta contempla alguma política de procedimentos? Dá para se certificar da idoneidade da empresa que oferece idéias, de que ela não vá leiloar seus projetos entre concorrentes?

Num primeiro momento não há como garantir. Se determinada empresa procura alguém para lhe oferecer uma inovação potencial, é porque ela deve estar oferecendo também para outros. Mas o que o open innovation propõe é um processo ágil, que permita à empresa que o utiliza tratar, transformar e levar ao mercado idéias de forma mais eficiente que a concorrência. Isso, que chamamos de capacidade de absorção, tem de se basear no diferencial competitivo. É importante ter um tempo de resposta razoável às idéias que chegam, para não desmotivar as pessoas que se aproximam da empresa ofertante, para elas não acharem que não recebem atenção, que não têm resposta adequada às demandas que colocam. Um segundo passo é ter padrões de negociação e modelos de contrato já definidos para que, uma vez identificado um projeto de interesse da empresa, os profissionais saibam quais são os graus de liberdade que têm para negociar a questão da propriedade intelectual, a forma de exploração, a participação no negócio e recompensas futuras, para deixar tudo isso muito bem amarrado contratualmente – até prevendo, inclusive, situações de multa, caso se descubra que a idéia foi vazada para um concorrente e que esse eventual parceiro estaria atirando para todos os lados. Contratualmente dá para amarrar tudo isso.
Contatos com o Open Innovation Center Brasil podem ser feitos através do telefone (11) 4508-2755 ou do site
www.openinnovation.org.br.

 

Tentáculos para idéias em packaging

Embalagem é um tema de particular interesse para os grandes fabricantes de bens de consumo já engajados na inovação aberta. A Procter & Gamble, por exemplo, produz um site com farto material acerca das iniciativas do seu programa Connect + Develop de open innovation. Um recente resultado de uma ação de inovação aberta da P&G com um fabricante de embalagens, a Cotton Buds, foi o lançamento, nos Estados Unidos, do Tide Sink Packets – uma versão on-the-go de lava-roupas líquido, em formato de pequenos sachês que permitem a lavagem manual de roupas durante viagens. O Innovate with Kraft, da Kraft Foods, também conta com um site, que lista os tópicos relacionados à embalagem que estão na pauta de seu departamento de P&D. A Unilever também mantém um canal on-line para o seu programa Ideas4Unilever. O site, porém, não é tão rico em detalhes. No Brasil, quem se mostra sintonizada com iniciativas desse gênero é a Natura. O programa Natura Campus, que incentiva parcerias com universidades e outras empresas, conta com um espaço no portal de Internet da fabricante de cosméticos.
Saiba mais sobre alguns programas de open innovation:
Unilever: www.ideas4unilever.com
Kraft Foods: www.kraftfoods.com/innovatewithkraft
P&G: www.pgconnectdevelop.com
Natura: www.natura.net/campus

  
 

Em outubro, seminário sobre inovação aberta

O ponto de partida para a criação do Open Innovation Center Brasil foi o Open Innovation Seminar 2008, evento realizado em junho do ano passado em São Paulo, e que trouxe pela primeira vez ao País o americano Henry Chesbrough, professor, especialista em gestão corporativa e criador do conceito de inovação aberta. A segunda edição do evento irá ocorrer nos dias 22 e 23 de outubro em São Paulo, provavelmente com nova participação de Chesbrough. Mais informações:
www.openinnovationseminar.com.br.







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