A cerveja embalada em PET chega discretamente às prateleiras e, antes de ser produzida em larga escala, já é alvo de muita polêmica e discussão. A cerveja em PET já é usada na Europa – no Leste Europeu representa 50% das vendas – na Austrália e nos EUA. A Miller envasa cerveja em garrafa plástica desde 1998 e outras grandes cervejarias, como Heineken, Carlsberg e InBev também vendem a bebida nesse tipo de embalagem. Só na Rússia, a InBev vende três marcas em PET: BagBier, Rifey e Permskoye Gubernskoye. No Brasil, por enquanto, apenas duas pequenas cervejarias do interior paulista se aventuraram nessa seara: a Atlas e a Belco. Mas ambas dependem de liminares da Justiça para vender os produtos. O procurador da República, Jefferson Aparecido Dias, entrou com ação civil pública para condicionar o envasamento da cerveja em PET a um estudo de impacto ambiental (EIA) que preveja medidas para recuperação da embalagem após o uso. As empresas obtiveram liminares pois seus produtos são anteriores à ação.
“Se houver uma substituição da lata pelo PET haverá uma sobrecarga ambiental muito grande”, defende Dias. A proposta é que as empresas invistam em fundos de recolhimento ou se responsabilizem pelo processo.
Embora seja reciclável, o PET tem um índice de aproveitamento baixo se comparado com a latinha de alumínio. O volume da garrafa – que dificulta o transporte – e o baixo preço não despertam o interesse dos catadores. Enquanto um quilo de PET (cerca de 20 garrafas) é vendido entre R$ 0,50 e R$ 0,70, segundo a ONG Recicloteca, um quilo de alumínio (60 latinhas) custa cerca de R$ 2,50.
Apesar de a InBev ter uma das mais modernas tecnologias para envase de cerveja em PET fora do Brasil, a sua principal subsidiária, a AmBev, que está construindo uma fábrica de garrafas de vidro no Rio de Janeiro, é contra a adoção da embalagem no país. Além da questão ambiental, enfatizada pela empresa, há o temor de repetir nas cervejas o que aconteceu com o setor de refrigerantes, que teve de enfrentar o crescimento das tubaínas. O PET foi um divisor de águas no mercado de refrigerantes e democratizou o setor, abrindo espaço para inúmeras pequenas marcas. O processo de envase é mais barato e exige baixos investimentos.
“É uma tecnologia que reduz custos e como as margens são muito importantes para a indústria, no futuro, a multiplicação dessas embalagens é um risco”, afirma Milton Seligman, diretor de assuntos corporativos da AmBev. Segundo Seligman, se a produção for liberada, todo mundo vai entrar - inclusive a AmBev que já detém a tecnologia lá fora - porque o mercado é muito sensível a preço. “Seria uma dano para a categoria e para o meio ambiente”, completa.
As pequenas que já se aventuraram no lançamento da cerveja em PET resolveram apostar no diferencial – apesar do custo jurídico. “É muito difícil disputar esse mercado e resolvemos apostar em algo que ninguém faz”, afirma Rene Andreasi, diretor técnico da Belco. A empresa começou a desenvolver o produto há três anos. Começou a vender a embalagem de 1,5 litro no final do ano passado e agora testa a de 350 mililitros. As vendas estão concentradas em supermercados do interior de São Paulo. A garrafa de 1,5 litro é vendida entre R$ 3,80 e R$ 4,00.
A Atlas, localizada em Vinhedo, começou a produção em PET em 1996. Por conta da ação civil pública ficou 60 dias parada até obter liminar para funcionamento. “Somos pequenos, temos que trabalhar com nichos”, afirma Maurício Baduy, sócio da cervejaria. A Atlas faz embalagens de 1 litro na cor âmbar (como as estrangeiras), vendidas entre R$ 2,80 e R$ 3,00.
As maiores empresas, como a mexicana Femsa já olham para esse mercado, mas esperam o desenvolvimento de uma embalagem mais apropriada, que permita uma vida útil maior do produto. A cerveja envasada em PET é, na verdade, chope, porque a embalagem não permite a pasteurização. Por ser muito porosa, permite a entrada de oxigênio e a saída de gás carbônico. A cerveja da Atlas dura 45 dias e precisa ser mantida sob refrigeração e da Belco pode ficar nas prateleiras por até 90 dias.
(Valor Econômico)
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