Exclusivo: Foco no outside-in

(íntegra da entrevista publicada na edição 203 da revista EmbalagemMarca – julho de 2016)

 

Costa, Carlos (1)

Carlos Costa, diretor de pesquisa e desenvolvimento para embalagens e plásticos de especialidades da Dow

Como diversas outras multinacionais, a Dow tem em seus quadros executivos brasileiros em posições de destaque. Um deles é Carlos Costa. Com mais de vinte anos de casa, ele ocupa há dois anos o cargo de diretor de pesquisa e desenvolvimento para embalagens e plásticos de especialidades na matriz americana da companhia química. É o primeiro estrangeiro a comandar essa divisão. Costa ausentou-se brevemente de seu escritório em Freeport, no Texas, onde rege 65 engenheiros e vinte técnicos dedicados a inovações em embalagem, para visitar o Brasil no início de junho. EmbalagemMarca conversou com o profissional sobre seu trabalho e suas perspectivas para o mercado.

 

Como o senhor vê os cenários para inovação em embalagem nos Estados Unidos e no Brasil?

O mercado dos Estados Unidos é maior e mais maduro que o brasileiro. Lá, praticidade é uma linha mestra. O americano não tem tempo para nada. Em alimentação, a cultura é de comer para sobreviver, sem muito prazer. Mas a preocupação com uma nutrição mais saudável é crescente. Outro driver é a sustentabilidade. Os Estados Unidos sempre foram reticentes quanto a questões ambientais, mas isso vem mudando. Já no Brasil, o que há de vantagem é a versatilidade. Todo mundo tem de fazer alguma coisa diferente para sobreviver. Muitas vezes algo que a gente começa a desenvolver nos Estados Unidos acaba virando realidade mais rapidamente no Brasil do que lá. Nos Estados Unidos as etapas de desenvolvimento são mais lentas, tomam mais tempo. A disposição para assumir riscos é menor. Os donos de marcas não admitem fracassar com uma embalagem. No Brasil, o pessoal é mais atirado.

 

Como os anseios dos brand owners têm influenciado seu trabalho?

Um trabalho crescente nos Estados Unidos é com embalagens resseláveis. É uma demanda em alta no setor de queijos, em bolachas. No mercado americano tem muitas embalagens de biscoito que abrem na parte central e depois podem ser refechadas. Isso avança bastante. Temos trabalhado forte em soluções que combinam a parte de resinas com a parte de adesivos. Outro pedido é por embalagens com menos material. É fazer mais com menos, embalagens mais leves, mais finas. Vai ao encontro disso lá, como no Brasil, o uso cada vez maior de stand-up pouches. Na parte de reciclagem, temos como um foco as embalagens monomaterial. Nosso projeto do pouch 100% de polietileno (ver https://issuu.com/embalagemmarca/docs/em142/52) tem um approach em que o dono da marca poderá anunciar essa vantagem estrutural, que favorece a reciclagem, por meio de um selo. Temos trabalhado com aditivos que chamamos de compatibilizantes, ou seja, capazes de viabilizar a recuperação de estruturas normalmente conflitantes na reciclagem, como as que têm barreiras, poliamidas, nylon. Isso já é realidade nos Estados Unidos.

 

O pouch 100% de polietileno já tem usuários?

Nos Estados Unidos sim, em marcas de detergentes para máquinas de lavar louça. Alguns end-users inclusive já exploram a propriedade “100% PE” na embalagem. E outros setores estão aderindo, como os de lava-roupas em pods (cápsulas) e o de balas, como solução para agrupamento. Na América Latina já existe uso em produtos sólidos, no México e na Argentina. Na Argentina, aliás, ocorreu recentemente a primeira aplicação do pouch 100% PE para líquidos (um hidratante capilar). No Brasil ainda não temos cases. A introdução de todos esses conceitos, de monocomponente, de sair da embalagem rígida para a flexível, demanda um tempo de adaptação de toda a cadeia. O fabricante da máquina de pouch precisa fazer adaptações. Em tudo isso nós temos avançado muito. Por isso o conceito de estar todo mundo junto, senão não conseguimos fazer com que o mercado final se converta.

 

A Dow tem procurado se aproximar dos usuários de embalagens?

Sim. Nossos clientes são os convertedores, mas nosso approach é com toda a cadeia de valor da embalagem, incluindo os brand owners. Colocamos todo mundo junto, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento e torná-lo muito mais efetivo. Quando você consegue conversar com todo mundo, sem dúvida todos aprendem. Todos entendem o que o dono da marca está precisando, facilita a visualização. Isso quebrou um paradigma nos Estados Unidos. No princípio os clientes não entendiam muito bem o approach, entendendo que estávamos pulando uma etapa. Explicamos: nosso cliente é você. O que queremos é ver como podemos ajudar você e o fabricante de máquina a atender melhor o dono da marca. Aquele modelo de inventar algo no laboratório e depois sair a campo para descobrir um propósito está no museu. Acabou. Hoje, grande parte dos desenvolvimentos de novas famílias de resinas se dá através do “outside in”, ou seja, do que o mercado está precisando e como podemos criar uma solução diferenciada para permitir aos nossos clientes se diferenciar também. Tem sido uma experiência gratificante.

 

O que são os Pack Studios da Dow?

Os Pack Studios têm um conceito que vai além dos laboratórios tradicionais. Eles combinam as capacidades do laboratório em si com essa forma de atuar dentro da cadeia. A gente utiliza alguns recursos externos. Por exemplo, se um cliente precisa da nossa ajuda para fazer o desenvolvimento de uma embalagem, estudamos condições. Podemos colocar no circuito uma agência de desenvolvimento ou de design. Vale esclarecer que o Pack Studios é uma rede. Os quatro principais, na América do Norte (Freeport, Estados Unidos), na Europa (Mozzate, Itália, e Horgen, Suíça), na América Latina (São Paulo) e na Ásia (Xangai, China), são altamente integrados. Temos equipamentos, e a prioridade de cada um deles é o que o mercado local demanda. A base de desenvolvimento de termoformados, por exemplo, é liderada pelo Brasil. Por quê? Porque o País tem todo o mercado de produção de frango, de carne, que é o mercado que demanda esse tipo de desenvolvimento. Nos Estados Unidos trabalhamos mais focados na parte de túneis de encolhimento. A grande tendência de mercado lá é sair da caixa de papel cartão para agrupamento de cerveja e ir para termoencolhível. Na Ásia estamos mais voltados para o desenvolvimento de sachês. É um mercado que demanda fracionamentos, embalagens bem pequenas. Na Europa é uma mistura de stand-up pouches e empacotamentos de alta velocidade. É muito parecido com o Brasil, mas com características diferentes, principalmente o tamanho da embalagem. A gente faz com que nosso cliente tenha acesso a toda essa rede, aos melhores expertises que a gente tem. Se um cliente brasileiro quer desenvolver ou fazer um teste de embalagem de sachê, nós vamos mandar para o Pack Studios da Ásia, faz uma videoconferência com os especialistas lá e faz a experiência lá.

 

Quais os desafios para pesquisa e desenvolvimento em sua área?

Cada vez mais as embalagens estão se tornando complexas, no sentido de utilizarem mais materiais que estão disponíveis no mercado. Quando eu comecei na Dow se falava em monoextrusão, em dois materiais misturados… Hoje já se fala em cinco, sete camadas, filmes laminados, e isso muda completamente as características da embalagem. Hoje, mais do que se discutir se uma resina é melhor do que a outra, se discute qual a funcionalidade da resina na embalagem. Se ela está lá para dar resistência, para melhorar a selagem, para baixar custo. Quando se tem esse tipo de coisa, a complexidade para fazer uma formulação e entender o que você precisa melhorar na sua resina aumenta bastante. Como a gente passou a fazer testes com a embalagem final, a coisa mudou. Geralmente o mercado pega as embalagens e faz muito teste empírico. E como nós vamos conseguir transformar isso em dados científicos para que possamos traduzir para a nossa área de desenvolvimento o que precisa ser mudado na resina? Nós passamos a usar um programa de modelagem, algo muito utilizado na indústria automobilística, que é uma área onde temos muito expertise, e trouxemos esse conhecimento para a área de embalagens. E tem dado muito resultado. A gente passou a entender os testes de queda, de resistência. Com isso a gente passou a ter uma base melhor para o desenvolvimento das nossas resinas. Essa nova família de resinas, Innate, que a gente lançou, já utilizou esse tipo de metodologia. A resina foi produzida para embalagens flexíveis que precisam de resistência a queda, e nós temos certeza que vai funcionar na maioria dos casos. O principal objetivo da resina é aumentar a resistência ao manuseio, a quedas, perfuração, rasgos.

 

A transição de embalagens rígidas para flexíveis é uma tendência? Em que mercados isso acontece com maior velocidade?

Nos Estados Unidos, toda a parte de molhos em geral, não só de atomatados, segue para os stand-up pouches. Essa parte de detergentes, principalmente o refil, também. Com esse conceito de reduzir a embalagem, o conceito hoje é de refis com mais volume que a embalagem rígida original. No Brasil a coisa está acontecendo basicamente nos mesmos mercados. A grande diferença é novamente a questão da escala. Lá os custos integrados da cadeia são muito mais competitivos. Por outro lado, tem alguns mercados que oferecem uma grande resistência, no caso dos termoencolhíveis, por exemplo.  Em todo o mundo é consagrado o uso de filme termoencolhível para cervejas, e nos Estados Unidos é só para a parte de água. Na cerveja o departamento de marketing tem alguma restrição para saber se o consumidor vai aceitar a embalagem. O grande mercado americano de cervejas é em long neck. O papel cartão domina os packs de cerveja, apesar de todas as análises econômicas mostrarem que o termoencolhível é uma melhor alternativa. Existe uma solução, ela é viável, mas existe uma resistência do consumidor. No Brasil é mais fácil o uso dos termoencolhíveis em cervejas, porque a grande venda no varejo é de latas, onde não há resistências, e já tem marcas utilizando o termoencolhível em garrafinhas.

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