Embalagem: o componente final

Quando números crescentes de consumidores que se preocupam com a saúde eliminam produtos químicos da dieta, a embalagem entra no jogo

Por Jorge Izquierdo, vice-presidente de desenvolvimento de mercado da PMMI

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Alimentos orgânicos estão ganhando espaço rapidamente enquanto os consumidores estão comprando produtos minimamente processados e sem pesticidas com “rótulos limpos” e claros sem ingredientes artificiais e aditivos. Ao mesmo tempo em que esses consumidores, conscientes com a importância da saúde, prestam mais atenção às substâncias que entram no corpo e que vão para o meio ambiente, eles também esperam que as embalagens dos alimentos orgânicos sejam totalmente ecológicas para garantir que não estejam consumindo ingredientes “imprevistos”. Preocupados com a possibilidade de transferência de produtos químicos entre a embalagem e os alimentos, e embasados por uma variedade de fontes de informação – algumas de credibilidade, outras não – alguns consumidores estão até mesmo defendendo controles mais rígidos de determinadas substâncias encontradas em materiais de embalagem.

Em meio a esse ambiente, é importante que os fabricantes de produtos orgânicos ou de rótulo limpo vejam além dos ingredientes incluídos e selecionem uma embalagem que os ajudem a cumprir as promessas de pureza da marca. Os fornecedores estão buscando oferecer materiais e recipientes que atendam a essas expectativas do consumidor, e muitos deles estarão em exposição na PACK EXPO International 2016 (McCormick Place, Chicago, Illinois; de 6 a 9 de novembro de 2016). Afinal, o aumento das opções de alimentos orgânicos não parece que sofrerá desaceleração no curto prazo.

As vendas de alimentos orgânicos estão aumentando a uma taxa duas vezes maior que a de itens convencionais, e poderão apresentar um crescimento na casa das dezenas nos próximos anos. A Transparency Market Research avalia o mercado global de alimentos orgânicos em USD 105 bilhões em 2015, um aumento de USD 57 bilhões em comparação a 2010. No México, as vendas de alimentos orgânicos embalados aumentaram 11%, atingindo MXD$ 3,9 bilhões, com previsões de 10% de crescimento anual até 2019, de acordo com o relatório Euromonitor International de 2015. No Brasil, o valor das vendas de alimentos orgânicos embalados aumentou 22% no mesmo período, atingindo R$ 105 milhões. O estudo atribuiu esse aumento, pelo menos em parte, ao fato de que mais consumidores consideram esses elementos como compras essenciais, especialmente no caso de alimentos para bebês e crianças.

Conforme os orgânicos passam cada vez mais a ser o foco principal, varejistas estão aumentando sua variedade de ofertas desses produtos. Por meio da sua rede de hipermercados localizados em todo o Brasil, a Cia. Brasileira de Distribuição relatou um aumento de 7% da participação em termos de valor com sua linha de alimentos naturais e orgânicos, Taeq, empresa líder em alimentos orgânicos embalados.

O Euromonitor prevê um impacto extraordinário sobre esse segmento de alimentos. Como observado com a Via Verde, marca própria de produtos orgânicos do Walmart, que oferece produtos importados especiais, em 2014, essa linha apresentou um crescimento de 61% em termos de valor.

Grandes fabricantes, incluindo General Mills e Danone S.A., entraram no negócio por meio de aquisições, enquanto outras empresas e marcas lançaram extensões de linha orgânica em categorias como alimentos para bebês e lanches.

A preocupação cada vez maior do consumidor com os produtos químicos presentes nos alimentos está ajudando a impulsionar o crescimento de produtos orgânicos e naturais. Ao mesmo tempo, os consumidores têm muito mais voz ativa sobre essas preocupações, levando os órgãos regulatórios e entidades do setor a impor limites quanto às substâncias, que, de alguma forma, forem consideradas nocivas.

Como a regulamentação global impõe limites e proibições a determinadas substâncias, como o bisfenol A (BPA), fabricantes de alimentos orgânicos e naturais tomaram medidas para remover os produtos químicos suspeitos. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) proibiu a importação e a venda de mamadeiras contendo bisfenol A (BPA) em 2011.  A eliminação de BPA fez parte de um plano maior para os regulamentos da limpeza de embalagens de itens alimentícios no Brasil.

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Porém, o Brasil não foi o primeiro país a regulamentar o BPA e outros produtos químicos em embalagens de alimentos. Canadá, China e Emirados Árabes Unidos estão entre os países que proibiram o uso do insumo em mamadeiras. Enquanto a União Europeia implantou sua legislação de 2006 abrangente sobre Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Produtos Químicos (Registration, Evaluation, Authorization and Restriction of Chemicals, REACH), alguns países ainda estão buscando controles ainda mais rígidos quanto a produtos químicos que afetam o sistema endócrino.

Embora as regulamentações globais estejam sendo implantadas, a mudança não é imediata. Por exemplo, o BPA ainda prevalece amplamente em latas. Uma pesquisa do Environmental Working Group no ano passado descobriu que 44% das marcas de alimentos enlatados usam revestimentos com BPA em alguns ou todos os seus produtos, 31% usam exclusivamente BPA e 12% nunca o utilizam.

Porém, conforme os países impõem regulamentos mais rígidos quanto aos produtos químicos encontrados nos bens de consumo, muitos fabricantes estão adiantando a implantação desses padrões fazendo ajustes proativos aos seus produtos e embalagens. Com a demanda por produtos orgânicos apresentando uma alta histórica, os fabricantes dos Estados Unidos preparam-se para competir pela fidelidade dos consumidores priorizando substâncias que não sejam nocivas ao meio ambiente nem ao corpo. A Johnson & Johnson prometeu remover produtos químicos, incluindo triclosano e ftalatos, dos produtos para bebês e adultos,  e a Procter & Gamble está removendo triclosano e ftalato de dietila dos produtos de limpeza e cuidados pessoais, conforme anunciado pelas empresas.

Em 2014, o Walmart afirmou que iria trabalhar com os fornecedores para reduzir ou eliminar dez produtos químicos de alta prioridade dos itens de limpeza, cuidados pessoais e cosméticos. Embora a rede diga que não está publicando a lista por questões comerciais, órgãos de defesa do consumidor (watchdogs) esperam que ela inclua os produtos químicos considerados por órgãos regulatórios como prejudiciais ao sistema endócrino, carcinogênicos e toxinas bioacumulativas.

A Campbell Soup Co. e a General Mills afirmaram estar retirando BPA de todos os produtos enlatados; e a GM está retirando esse produto químico da sua linha Muir Glen de tomates orgânicos enlatados. A ConAgra anunciou neste ano que todas as fábricas nos EUA e no Canadá passaram a usar latas sem revestimentos de BPA, e a H.J. Heinz passou a adotar produtos sem BPA, incluindo alimentos para bebês e recipientes de sucos. A Walmart e a Whole Foods pararam de vender mamadeiras feitas com BPA, e o Trader Joe’s afirmou estar trabalhando para eliminar o produto químico por completo.

Marcas de alimentos orgânicos reconhecem que os compromissos com a saúde geral estendem-se ao fornecimento de embalagens que não prejudiquem as promessas de alimentos orgânicos, naturais e sem produtos químicos. Para garantir que alimentos com rótulo limpo e outras mercadorias continuem assim, muitas dessas empresas estão optando por materiais e recipientes que minimizam o risco de lixiviação química.

Por exemplo, a TrueBee Honey acondiciona seus produtos em garrafas de vidro, que não apenas proporcionam um visual mais sofisticado, como também são identificadas pelos consumidores como uma opção mais segura que embalagens mais associadas a revestimentos químicos. O fato de que essas embalagens são reutilizáveis também atrai o público-alvo da marca, composto por indivíduos focados em ecologia.

A Pacific Foods está levando seu compromisso com a sustentabilidade ainda mais longe. A empresa baseada em Oregon, EUA, dedicada a alimentos naturais e sem aditivos embalados de modo sustentável e adquiridos localmente, está trabalhando para atingir uma meta de zero resíduo para aterro sanitário ao reduzir resíduos de embalagens contaminadas com alimentos das suas operações. Usando materiais de embalagem e enchedores assépticos da Tetra Pak, Inc., a Pacific Foods tem uma máquina personalizada que limpa o material residual de embalagem e o tritura durante a preparação para vender a empresas de reciclagem.

Outras empresas estão adotando medidas ainda mais criativas para colocar soluções de embalagem inovadoras e naturais no mercado. A tecnologia WikiFoods da Quantum Designs embala os alimentos e as bebidas em embalagens comestíveis feitas com ingredientes naturais. A Stonyfield Farm desenvolveu Frozen Yogurt Pearls em embalagem protetora WikiPearl feita de cascas de fruta e está trabalhando com os varejistas para encontrar maneiras de vender o produto totalmente sem embalagem.

As empresas podem consultar os padrões de diretrizes sobre práticas recomendadas na embalagem de alimentos orgânicos oferecidos pela IFOAM – Organics International. As normas estabelecidas por agências que certificam as alegações de alimentos orgânicos incluem a determinação de que os operadores não devem usar material de embalagem que possa contaminar produtos orgânicos ou que possam ter entrado em contato com substâncias que possam comprometer a integridade orgânica, e devem evitar misturar produtos orgânicos com não orgânicos desde o processamento até o transporte. As empresas devem utilizar materiais de embalagem biodegradáveis, embalagens reutilizáveis e embalagens recicláveis para minimizar o impacto ambiental total.

O IFOAM considera o cloreto de polivinila (PVC) e o alumínio materiais a serem evitados, e proíbe materiais de embalagem e recipientes de armazenamento que contenham um fungicida sintético, conservante, fumigante. O uso de nanomateriais é proibido na produção, no processamento e na embalagem de alimentos orgânicos.

Marcas que estão passando para soluções ecológicas podem buscar materiais de embalagem convencionais e substâncias mais novas que prometam impacto mínimo sobre a saúde e o meio ambiente. Por exemplo, bioplásticos limitam ou eliminam componentes à base de petróleo, promovendo menos emissões de carbono e reciclagem. Plásticos PET feitos parcialmente de vegetais já são usados em garrafas de refrigerante. A Wild Oats está entre as marcas que usam bioplásticos de ácido polilático derivados de fontes de amido, como milho, cuja biodegradação é menos nociva. Até mesmo oleorresinas naturais podem ser usadas em revestimentos de latas como alternativa a resinas contendo BPA; porém, é preciso estabelecer sua eficácia como substitutas ao BPA, que é usado para prevenir botulismo e decomposição.

Ao mesmo tempo que os clientes dão preferência a embalagens produzidas com materiais naturais e feitas com o mínimo  possível de produtos químicos, produtos de papel e embalagens de fibra vegetal podem oferecer opções favoráveis. Por exemplo, a Tetra Pak usa papelão feito de materiais renováveis em seu processo de enchimento asséptico que evita a necessidade de conservantes e armazenamento refrigerado.

Para alimentos com alto teor de ácido que podem comprometer os revestimentos da lata, os alimentos orgânicos passaram para frascos de vidro. Porém, o PET (tereftalato de polietileno) e polietilenos de alta e baixa densidade são amplamente considerados plásticos de baixo risco. Produtores de vinho estão, inclusive, avaliando bolsas de PET como alternativas possivelmente aceitáveis ao vidro.

Nanomateriais estão na vanguarda do desenvolvimento de tecnologia de embalagem. Compostos por partículas de dimensões em nanoescala minúsculas, os nanomateriais oferecem vantagens que incluem redução de material, maior resistência com menor peso, barreira aprimorada, controle de temperatura e ação antimicrobiana ativa. Nanocompostos são usados hoje para minimizar o vazamento de CO2 em garrafas de bebidas com gás e em recipientes de armazenamento de alimentos em que as nanopartículas de prata integradas matam as bactérias.

Embora as possíveis aplicações possam solucionar uma variedade de desafios na embalagem de alimentos, pouco se sabe sobre sua segurança, considerando que as partículas de tamanho muito pequeno podem penetrar com mais facilidade e mais profundamente no corpo, e permanecer mais tempo no meio ambiente. A FDA recomenda que as empresas consultem a agência antes de colocar nanomateriais no mercado, o que pode exigir uma análise de segurança caso a caso.

Ao mesmo tempo em que uma onda de inovação está ampliando as opções para proprietários de marcas de orgânicos que exigem embalagem como uma parte integral dos seus produtos, outros materiais de embalagem de alimentos amplamente utilizados têm gerado preocupações. As marcas passaram a eliminar a espuma de poliestireno das embalagens. O National Research Council reafirmou, em 2014, uma descoberta anterior do Programa Nacional de Toxicologia de que a lixiviação de estireno de recipientes para viagem de alimentos e bebidas tem potencial carcinogênico. O McDonald’s recentemente passou de caixas de isopor de poliestireno para envoltórios à base de papel para suas embalagens de sanduíche, e a Jamba Juice comprometeu-se a parar de usar copos de isopor de poliestireno depois que mais de 130 mil pessoas assinaram uma petição exigindo uma medida a esse respeito.

Enquanto os fabricantes anunciam que deixarão de usar BPA, grupos de consumidores afirmam que os materiais sintéticos indicados como alternativas não foram bem estudados. O cloreto de polivinila (PVC) foi indicado como um substituto possível do BPA,  mas críticos rotularam o PVC como um plástico com lixiviação de ftalato vinculado a uma variedade de efeitos prejudiciais à saúde. Alguns fabricantes estão substituindo BPA pelo seu primo químico bisfenol S (BPS) que, segundo alguns estudos, como um recente artigo da Universidade do Texas, mostrou que atua, em baixas doses, de modo prejudicial ao sistema endócrino de maneira similar ao BPA.

Além de os consumidores se tornarem mais intensamente conscientes sobre o valor da reciclagem como prática sustentável, eles estão cada vez mais buscando embalagens que contenham material reciclado ou do qual exista a possibilidade de reciclagem. Para plásticos reciclados, as preocupações do FDA estão focadas na incorporação de FCMs (Materiais em Contato com Alimentos) do material reciclado pós-consumidor não regulamentado para uso em contato com alimentos, e a migração de contaminantes em material reciclado para FCMs. Os fabricantes que usam material reciclado em FCMs devem relatar a origem do material, controles que garantam que apenas plástico que inicialmente estava em conformidade foi reciclado e uma descrição do processo de reciclagem.

Embora exista ainda muito a ser aprendido sobre a segurança de materiais de embalagem de alimentos, as marcas não podem deixar de ignorar a demanda crescente dos consumidores por garantias de que os alimentos que eles compram são seguros para o corpo e para o meio ambiente. À medida que mais consumidores escolherem opções orgânicas, os fabricantes de alimentos devem adquirir embalagens que fundamentem suas promessas de pureza – e informar efetivamente as medidas adotadas para atender às preocupações de compradores criteriosos.

A PACK EXPO International 2016 oferecerá um fórum para essas empresas poderem observar de perto e com detalhes as opções de embalagens disponíveis, conversar com fornecedores para entender totalmente os prós e contras das diferentes tecnologias e, por fim, selecionar a opção mais adequada para cumprir as promessas da marca e promover a fidelidade dos clientes.

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